04 Março 2009

Me mudei

Pois, depois de quase 4 anos, o Delírio Eterno migra para o wordpress.
O novo endereço, gravem aí, é www.delirioeterno.wordpress.com .
Apareçam!
E obrigado aos leitores e ao blogspot, que me acompanharam nesse tempo todo.

03 Março 2009

Direto da faxina

Faxinas às vezes cospem na gente objetos que não sabemos como foram parar ali. Como um monstro do armário ou um vampiro atrás da cortina, aparecem brincos, colares, sei lá mais o quê. De alguma dimensão que ainda não podemos compreender – talvez a mesma para onde vão os guarda-chuvas supostamente esquecidos –, esses pedaços de imaginação desembarcam em nossos quartos ou salas. Ou tentam me convencer de minha loucura – da qual já estou perfeitamente convencido – ou seu objetivo é me aguçar ainda mais minha insanidade.
Pois na minha faxina de ontem me apareceu uma pequena pérola verde, bem pequena mesmo, com um furo no meio. Talvez um pedaço de brinco, talvez um pedaço de colar, talvez um pedaço de saudade de alguém que nem sei.
De que orelha mordida ou de que pescoço roído caiu esse pequeno verde delicado? Foi arrancado com dedos desatinados ou dentes desbaratados em desespero doido doído ou demente?
Agora entre os meus dedos algum pedaço de alguma ela, um leve sorriso sorri divertido em meus lábios, talvez culpados com cara de inocente no caso da pérola verde com um furinho no meio. O pedaço de brinco ou colar agora se esparrama cansado aqui ao lado do computador, calada. Não denuncia sua dona, não chora sua ausência, está muito bem aqui sem ela, seja lá quem ela for. Sorri de canto e me pisca um olho numa cumplicidade de quem também ficou por aqui, de canto, meio esquecida, meio presente, mesmo na ausência.

Lixo.

01 Março 2009

E se estás triste?

Se hoje me perguntares o que fazer quando estás triste, responderei melhor do que ontem, quando respondi melhor do que antes.
Vai, pergunta, quero tentar falar, quero tentar te ajudar e me ajudar, quero tentar responder:
Pra começar, não faça nada além do fazer mais essencial: o pensar. Pense em tudo ao mesmo tempo e em nada em tempo nenhum.
Pense tudo embaralhado, um turbilhão de pensares que causará um turbilhão de sentires. Sintas tudo e nada enquanto tua cabeça gira, roda. Pense mal de ti e dos outros. Pense que és fraca, tola e má, exagerada até. Pense que os outros são piores. Eles são, garanto. Devagar, as ideias começarão a tomar seus lugares, o caos é, por natureza, uma forma de organização. Sabes o que pensas. Apague, então, as convenções, as ideias pré-estabelecidas, o que já aconteceu. Apague, apenas por poucos instantes, os momentos bons e os momentos ruins. Lembranças felizes trarão a pior inveja, a inveja de alguém que não pode ser
igualado, a inveja do passado. Lembranças tristes trarão mais tristeza, o que também não pode ajudar. Coloque-as de lado. Já não servem mais. Não agora. Servirão depois, talvez, muito depois, quando já puderes rir sinceramente disso tudo.
Renove a cabeça, não se apegue a absolutamente nenhuma ideia, conceito ou palavra, nem a essas que agora lês. Não se apegue a sentimentos antigos, a vivências antigas, só causarão mais dor, mesmo que não percebas isso agora.
Esqueças o que tens de bom. Nada do que tens vai resolver. Esqueça também o que tens de ruim, limpe a cabeça. Não pense em mais nada. Nada do que pensares trará soluções. Então sinta. Sinta o futuro. Sinta, inclusive, teu próprio pensamento no futuro. Verás como estás certa e errada em achar que serás assim semre. Nesse futuro perceberás como essa ideia esteve certa, mas não está mais.
Sinta o que vais fazer. Não a partir de agora, não trace caminhos. O que vais fazer amanhã? Com quem vais estar? Como será teu olhar? Por onde vais andar carregando tua doçura? Quem brindarás com tua beleza completa e sem fim, com teus sorrisos ou tuas lágrimas, ou os dois juntos, e daí? Brinda a ti com isso tudo! Olha-te ao espelho. Mira teus olhos até notares e entenderes a profundidade escondida atrás deles, e notares e entenderes a profundidade que eles próprios contêm e emanam a quem observam lívidos. As lágrimas que escorrem lentas por teu rosto delicado rabiscam frases de uma beleza tua que (quase) ninguém pode ver. Olha bem essas frases, absorve-as com carinho, carinho por um pedaço de ti que fica em silêncio, sussurrando ao teu ouvido a suavidade que estás esquecendo que carregas.
Se tudo isso falhar, imagina. Imagina que estás rodando um bambolê em tua cintura-imã-de-carinhos. Imaginas que comes um brigadeiro feito pela avó mais querida, que corres fugindo de quem é a vez de pegar, imagina que te escondes ansiosa por ser descoberta e então correr. Que pulas corda, que olhas bem fundo nos olhos de uma criança, que tomas sorvete e um pingo escorre despercebido pelo lado da tua boca enquanto tuas amigas riem de ti e tu ri junto da tua distração, da tua forma de ser criança e pular e rolar na areia e jogar vôlei suada e lutar judô derrubada no chão e brincar de bonecas e ver desenho animado numa manhã de segunda-feira.
Te imagina sonhando com danças inocentes, com sorrisos ainda mais inocentes, com risadas idiotas, com a Sessão da Tarde comendo pipoca. Com o passeio no parque, com o teatro infantil. Lembra da bebedeira com as amigas, da piscina, do mar, das ondas que te gelam, dos teus óculos escuros criminosos que escondem teus olhos e, mais, teu olhar.
Imagina que beijo de leve os teus cílios, que desço a mão devagar por tuas costas, que afago tua testa enquanto relaxas na escuridão absoluta do silêncio. Que passo meus dedos nos teus em uma dança de mãos, um bolero infindável de calma e paz, que começas a rir louca-desvairada de nada, que pegas carona apertada de repente, que dormes e sonhas de novo com tudo.
Se tudo isso falhar, deita no meu colo que te faço cafuné recitando silêncios ou cantigas de ninar. Então teu sorriso será completo e tua tristeza adormecerá num piscar.

Março

São as águas de março fechando o verão.

16 Janeiro 2009

Tudo em ti

"Quando você ficar velha, grisalha e muito sonolenta,
E cochilando perto do fogo, pegue este livro,
E leia lentamente, e sonhe com o olhar suave
Que seus olhos um dia tiveram, e com a profundidade de suas sombras;

Quantos amaram seus momentos de radioso encanto,
E amaram sua beleza com falso ou verdadeiro amor,
Mas um homem amou a alma peregrina em você,
E amou as mágoas do seu rosto cambiante."


William Butler Yeats

14 Janeiro 2009

Seus cretinos encantadores

"Seus cretinos encantadores.
Não me façam feliz, por favor. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que alguma coisa boa pode sair disso. Olhem para meus machucados. Olhem para este arranhão. Estão vendo o arranhão dentro de mim? Estão vendo ele crescer bem diante dos seus olhos, me corroendo? Não quero ter esperança de mais nada."

Marcos Zusak, A menina que roubava livros

12 Janeiro 2009

Tan Lejano

Cuando estés vieja, niña,
te acordarás de aquellos versos que yo decía.
Tendrás los senos tristes de amamantar tus hijos,
los últimos retoños de tu vida vacía...

Yo estaré tan lejano que tus manos de cera
ararán el recuerdo de mis ruinas desnudas,
comprenderás que puede nevar en Primavera
y que en la Primavera las nieves son más crudas.

Yo estaré tan lejano que el amor y la pena
que antes vacié en la vida como una ánfora plena
estarán condenados a morir en mi manos...

Y será tarde porque se fue mi adolescencia,
tarde porque las flores una vez dan esencia
y porque aunque me llames yo estaré tan lejano...


Pablo Neruda, El nuevo soneto a Helena

05 Janeiro 2009

Restrospectiva 2009 em livros

As veias abertas da América Latina – Eduardo Galeano
Pistoleiros também mandam flores – David Coimbra
Carta a D. – André Gorz
O Amante – Marguerite Duras
Jornalismo Político – Franklin Martins
Reforma ou Revolução? – Rosa Luxemburgo
Tratado de Ateologia – Michel Onfray
Bailei na Curva – Grupo do Jeito que Dá (Júlio Conte)
Deus não é grande – Christopher Hitchens
A Hora da Estrela – Clarice Lispector
Vale Tudo – A fúria e o som de Tim Maia – Nelson Motta
Nosso homem em Havana – Graham Greene
A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro
Aos Meus Amigos – Maria Adelaide Amaral
Entrevistas – Clarice Lispector
Camarada e Amante – Cartas de Rosa Luxemburgo a Leo Jogiches
Infiel – Ayaan Hirsi Ali
101 Dias em Bagdá – Asne Seierstad
O Livreiro de Cabul – Asne Seierstad
Cem Melhores Crônicas – Mário Prata
O Livro Verde do Aiatolá Khomeini – Organização Jean-Marie Xavière
Traçando Porto Alegre – Luis Fernando Verissimo
Travessuras da Menina Má – Mario Vargas Llosa
Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva
Pátria somos todos – Paulo Paim
A Greve Geral de 17 em Curitiba – Ricardo Marcelo Fonseca e Mauricio Galeb
Piratas do Caribe – O Eixo da Esperança – Tariq Ali
Nosso GG em Havana – Pedro Juan Gutiérrez
Mamonas Assassinas – Blá blá blá – Eduardo Bueno
1968 – O ano que não terminou – Zuenir Ventura
Ensaio sobre a cegueira – José Saramago
Lágrimas na Chuva – Sergio Faraco
Humor nos tempos do Collor – Jô Soares, Luis Fernando Verissimo e Millôr Fernandes
Cinco Histórias do Bruxo do Cosme Velho – Machado de Assis
Livro do Pampa – Luiz de Miranda
As intermitências da morte – José Saramago
Romeu e Julieta - William Shakespeare
Da memória de um repórter – Lucídio Castelo Branco
Informação ao Crucificado – Carlos Heitor Cony
Os sofrimentos do jovem Werther – Johann Goethe
O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago
Ensaio Sobre a Lucidez – José Saramago
Sistemas de Comunicação e Identidades da América Latina – Org. Doris Fagundes Haussen
Desonrada – Mukhtar Mai
Ovelhas Negras – Caio Fernando Abreu
Ficções – Jorge Luis Borges
Mulheres – Eduardo Galeano
Um homem extraordinário e outras histórias - Anton Tchekhov
Bonequinha de Luxo – Truman Capote
A eternidade e o desejo – Inês Pedrosa
As coisas boas da vida – Rubem Braga
O Amor nos Tempos do Cólera – Gabriel García Márquez
Olhos Azuis Cabelos Pretos – Marguerite Duras
Vamos aprender poesia? – Armindo Trevisan
O Pão e a Esfinge seguido de Quintana e Eu – Sergio Faraco
Ensaios Íntimos e Imperfeitos – Luiz Antonio de Assis Brasil
Trilogia Suja de Havana – Pedro Juan Gutiérrez
Felicidade Clandestina – Clarice Lispector
Nas tuas mãos – Inês Pedrosa
Vinte poemas de amor e uma canção desesperada – Pablo Neruda

18 Dezembro 2008

Tempo

O medo da perda trouxe o nada para agora, e o presente empatou em saudade com o futuro.

16 Dezembro 2008

Aqui

O inferno é aqui.

06 Dezembro 2008

Do café

"Não tinha percebido ela própria que cada passo seu da casa ao colégio, cada lugar da cidade, cada instante de seu passado só pareciam existir por obra e graça de Florentino Ariza. Foi o que Hildebranda a fez ver, mas ela não admitiu, pois jamais reconheceria como realidade que Florentino Ariza, para o bem ou para o mal, era a única coisa que lhe acontecera na vida."

Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera

05 Dezembro 2008

Palavras

As palavras se perdem no ar?

27 Novembro 2008

Luz

Essa semana alguns postes da Cidade Baixa, em Porto Alegre, apareceram assim.


Quando fui bater as fotos, alguns cartazes já haviam sido retirados.


AI-5* 1968 - 2008
Nossa memória não esquece
Isso ainda acontece



A revolução também passa por pequenos atos civilizatórios, como esse. Muda-se o mundo mudando a cabeça das pessoas, e um bom começo é obrigá-las a pensar. Esses cartazes, arremessados contra a cara desprevenida de andantes apressados, cegos e desumanizados, abre um pequeno rastro de luz entre as pálpebras.

Não há como não reparar nos postes, não há como não parar nas esquinas e dar uma espiada, não há como não comentar ao chegar no trabalho, na escola, na faculdade, no bar. Semeando a psicose, semeando a loucura sã, inteligente, reflexiva. Semeando o pensamento.

25 Novembro 2008

Ficção e realidade

A escrita ficcional sempre é fruto de experiências pessoais. Mesmo que o escritor tire suas histórias de relatos de terceiros, de pensamentos, de sensações, da imaginação ou do ar, essas também são experiências pessoais. Além disso, a primeira palavra de qualquer escrito, no momento exato em que passa de qualquer dessas situações ao papel, é uma experiência pessoal. As palavras seguintes decorrem desse mesmo tipo de criação e de cada uma das palavras anteriores, de modo que a cada letra desenhada a experiência de realidade está mais presente, mais dominadora do que se diz ficção, mas não é nunca tão ficcional assim.

17 Novembro 2008

Feira do Livro de Porto Alegre - 2008


Esse post AQUI continua valendo. Nada mudou em um ano e parece que não vai mudar tão cedo.

Mesmo assim, foi mais um ano em que voltei da Feira do Livro de Porto Alegre com um bom acréscimo na minha estante. Dessa vez me atirando nos saldos, e contando com alguns presentinhos, foram 11 livros a mais e algumas horas bem divertidas por lá.
Bonequinha de Luxo - Truman Capote
O Anarquismo - Luiz Pilla Vares
A Eternidade e o Desejo - Inês Pedrosa
A Viagem do Elefante - José Saramago
A vulnerabilidade dos partidos políticos e a crise da democracia na América Latina - Marcello Baquero
Olga - Fernando Morais
Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez
O Golpe - John Updike
Olhos Azuis Cabelos Pretos - Marguerite Duras
As Boas Coisas da Vida - Rubem Braga
Contos Reunidos - Machado de Assis
De quebra, ainda ganhei um concurso de contos da Band News, ligado à Feira. Saldo mais do que bom.
Até o ano que vem.

15 Novembro 2008

O sono da natureza

"Era uma da madrugada - hora em que geralmente a natureza está imersa no mais profundo e mais doce sono pré-matinal. Mas dessa vez a natureza não dormia e não se podia dizer que a noite era tranqüila. Gritavam codornas, perdizes, rouxinóis, chiavam grilos e cigarrinhas. Por sobre a erva pairava uma névoa leve, e no céu, ao largo da lua, nuvens corriam apressadas não se sabe para onde, sem olhar para trás. Não dormia a natureza, como se temesse perder dormindo os melhores momentos da sua vida."

Anton Tchekhov, Um homem extraordinário e outras histórias - Pavores

11 Novembro 2008

Carta Capital é a segunda mais vendida em banca do Menino Deus

Conversando com o dono de uma banca de revistas, na esquina das ruas Ganzo e Getúlio Vargas, em Porto Alegre, ouvi uma novidade interessante, importante e imprevisível: a Carta Capital é, ao menos em sua banca, a segunda revista semanal que mais tem saída, perdendo apenas para a Veja. Em pouco tempo, passou a isto É e a Época, conta-me ele. Isso em um bairro de classe média e classe média alta, o Menino Deus, um bairro pouco politizado.
E aí:
a) Os leitores tradicionais de Veja começaram a encher o saco e migrar para a Carta Capital
b) Os leitores de Época e Isto É pararam de comprar revistas
c) Os leitores de Época e Isto É resolveram tentar outra revista, por algum motivo desconhecido
d) Tem mais gente lendo e buscando informar-se com qualidade, e acabou aquela história do Tim Maia, agora pobre brasileiro é de esquerda
e) A classe média está migrando para a esquerda
f) A classe média parou de comprar revistas
g) Outra opção (qual?)

09 Novembro 2008

Internet

"É um paradoxo que alimenta o otimismo: a internet nasceu a serviço da morte, para programar as operações do Pentágono em escala mundial, e agora serve, entre outras coisas, para difundir vozes alternativas que antes tocavam sinos de pau."

Eduardo Galeano, em entrevista a Zero Hora

06 Novembro 2008

Uma falha na calçada

E o salto alto mirou o alto, e o nariz pra cima beijou o chão.

28 Outubro 2008

Entre a merda e o adubo

"Saúde nos tempos em que se dobra o corpo, a saúde e as certezas. São esses tempos precisos em que o olhar e o coração necessitam partir para a compreensão e busca de novos mundos, de novas perguntas, de novos cenários. Abandonar a aversão e o preconceito de vermos tal como somos, tal como cheiramos, tal como nos vemos e tal como falamos, é apenas o limiar dos arranjos de nossa sui-generis "modernidade" entre a razão e a intuição, entre o passado e o possível, a diferença entre a merda que empesta e o adubo que fertiliza."

Jorge A. González, "A razão e o coração nos tão falados tempos do cólera", no livro "Sistemas de Comunicação e Identidades da América Latina