Sinto muito frio. Meus galhos apontam para o ar, com os dedos abertos em sinal de súplica pela volta das minhas folhas. É sempre assim, e sei que continuará a ser, mas não consigo, mesmo depois de quase um século, acostumar-me ao outono. Não consigo conformar-me que, a cada ano, durante três meses, este malévolo vento leve de mim minhas queridas e indefesas folhinhas.
Esse ano tardou um pouco mais, mas aconteceu como sempre. Foi chegar abril e comecei a sentir-me mais próxima da morte. O outono é isso, uma experiência de quase-morte por ano. Estava fraca, doída e sabia estar feia. As pessoas passavam nas ruas e não me olhavam, os passarinhos passavam por cima de mim e não pousavam.
Agora, sinto os reflexos dos últimos três meses. Acaba de começar o inverno e o frio natural da estação é aumentado por não ter eu com o que me cobrir. Antes minhas folhas caíssem no verão, quando fazem com que eu sinta tanto calor, a ponto de transpirar alucinadamente. Mas não, o tempo não é bonzinho, não pensa em nós, aqui presas ao chão por nossas raízes, sem nada podermos fazer contra suas determinações. A única alternativa para nos esquentarmos no inverno é a lareira, mas a experiência não costuma ser exatamente agradável, talvez por ficarmos perto demais do fogo, invariavelmente.
Mas vou agüentar mais três meses de frio, sei que vou. Faço drama, reclamo, por saber que não deveria ser assim, mas já passaram tantos anos e continuo aqui, firme. Sou casca grossa, sim senhor. Não me entrego fácil assim pra qualquer tempo ruim. Querem levar minhas folhas? Levem, mas me viro um tempo sem elas e logo as terei de volta. Daqui a três meses, precisamente. Aí será a primavera. E cada primavera é para mim um renascimento, o melhor momento de minha vida várias vezes. Ficarei linda, todos me olharão ou pousarão sobre mim. Vou enfeitar-me para que sorriam ao ver-me e vou sorrir ainda mais quando me elogiarem – sei que vai acontecer, sempre acontece – uns para os outros, apontando-me contentes.
Vai chegar o verão e tudo continuará bem. É verdade que as flores começaram a ir embora, mas continuarei a agradar a todos com meus frutos. Se matei a fome da alma dos homens e dos pássaros na primavera, matarei a do corpo deles no verão.
Não vejo a hora. Sinto muito frio.
19 Setembro 2008
As quatro estações
Delírio de
Alexandre Haubrich
às
10:31 PM
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2 comentários:
agora a árvore está perguntando cadê essa porcaria dessa primavera q todo mundo quer mas q não chega nunca...
Isso me lembra um livro que eu li quando criança, de uma árvore que se doava para um menino. Ele brincava nela quando pequeno, cortou ela quando cresceu e sentou no que restou do seu toco para esperar a morte quando envelheceu.
Engraçado que tanto o frio quanto o calor são ciclos, que a gente só reconhece porque se alternam. Se fosse sempre verão que diferença fariam as flores? Se a vida fosse apenas sorriso não creio que eles também fariam muito sentido.
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