03 Março 2009

Direto da faxina

Faxinas às vezes cospem na gente objetos que não sabemos como foram parar ali. Como um monstro do armário ou um vampiro atrás da cortina, aparecem brincos, colares, sei lá mais o quê. De alguma dimensão que ainda não podemos compreender – talvez a mesma para onde vão os guarda-chuvas supostamente esquecidos –, esses pedaços de imaginação desembarcam em nossos quartos ou salas. Ou tentam me convencer de minha loucura – da qual já estou perfeitamente convencido – ou seu objetivo é me aguçar ainda mais minha insanidade.
Pois na minha faxina de ontem me apareceu uma pequena pérola verde, bem pequena mesmo, com um furo no meio. Talvez um pedaço de brinco, talvez um pedaço de colar, talvez um pedaço de saudade de alguém que nem sei.
De que orelha mordida ou de que pescoço roído caiu esse pequeno verde delicado? Foi arrancado com dedos desatinados ou dentes desbaratados em desespero doido doído ou demente?
Agora entre os meus dedos algum pedaço de alguma ela, um leve sorriso sorri divertido em meus lábios, talvez culpados com cara de inocente no caso da pérola verde com um furinho no meio. O pedaço de brinco ou colar agora se esparrama cansado aqui ao lado do computador, calada. Não denuncia sua dona, não chora sua ausência, está muito bem aqui sem ela, seja lá quem ela for. Sorri de canto e me pisca um olho numa cumplicidade de quem também ficou por aqui, de canto, meio esquecida, meio presente, mesmo na ausência.

Lixo.

2 comentários:

Anônimo disse...

ótimo

Gisele Sperk disse...

Adorei.